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Chapter 2

Capítulo 2: O Primeiro Acordo

Dante reflete sobre o casamento enquanto tenta quebrar o gelo com Débora. Uma conversa tensa vira um acordo inusitado, e uma brincadeira com o vestido manchado revela um lado mais leve do casal.

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Eu não sabia o que esperar quando entrei naquela igreja. Sabia que Diana era bonita — tinham me mostrado fotos —, mas o que eu vi foi uma mulher de vestido branco que parecia prestes a explodir. Não de raiva. De nervoso. Ela não queria estar ali. E eu? Eu também não mais precisava.

Mas agora, parado na sala dos fundos do salão, com o paletó nos ombros dela e uma mancha de vinho no chão, eu olhava para Débora e via alguma coisa que não esperava. Ela era a noiva dos sonhos da minha mãe. Porque ela não estava fingindo.E minha mãe odeia quem fingi.

— Então — eu disse, quebrando o silêncio —, você veio para salvar a empresa do seu pai, não foi?

Ela ergueu o queixo. Os olhos preto dela brilhavam, mas não de lágrimas. De irritação.

— Vim porque meu pai apareceu no café da manhã com um vestido e uma hora para decidir. Se eu dissesse não, todo mundo que trabalha com ele ia perder o emprego. Você prefere que eu tivesse dito não?

— Não. Prefiro que você seja honesta.

Ela soltou uma risada seca.

— Honesta? Eu estou usando o vestido da minha irmã, que quatro números menor que o meu, e acabei de ser manchada de vinho na frente de todo mundo. Honestidade é a única coisa que me sobrou.

Eu ri. Não debochando. Mas porque ela tinha razão. E porque, pela primeira vez em meses, alguém falava comigo sem rodeios.

— Tudo bem — eu disse, tirando o paletó dos ombros dela. — Vamos fazer o seguinte. A gente passa os próximos 5. meses fingindo que isso é um casamento de verdade. Sua família salva a loja, a minha fica feliz porque o herdeiro casou. Depois, a gente se separa em silêncio. Sem escândalo.

Débora piscou.

— Isso é um plano?

— É um acordo. Com uma cláusula.

— Qual?

— A gente tenta se dar bem. Não precisa ser amor. Mas se a gente for viver na mesma casa, melhor não se odiar.

Ela cruzou os braços. O vestido rangeu. Ela gemeu.

— Se eu respirar fundo, esse vestido explode.

— Então não respira fundo — eu disse, e ela riu de verdade. Um riso curto, surpreso, como se ela mesma não esperasse.

— Tá. Aceito o acordo. Mas com uma cláusula minha.

— Manda.

— Você não vai me tratar como se eu fosse um erro. Eu sei que não sou a Diana. Não sou magra, não sou alta, não sou elegante. Mas eu estou aqui. E não vou ficar me desculpando por isso.

O jeito que ela disse aquilo me pegou desprevenido. Não era vitimismo. Era uma parede. Ela já tinha ouvido aquilo antes, em outras situações, e estava cansada.

— Combinado — eu disse. — Mas então você também não vai se desculpar por ser você. E pode começar agora.

— Como?

— Tirando esse vestido.

Ela arregalou os olhos.

— O quê?

— Calma — eu ri, levantando as mãos. — Não é o que você está pensando. Esse vestido está manchado, apertado, e você claramente desconfortável. Vou mandar alguém buscar uma roupa minha. Enquanto isso, fica aqui. Ninguém vai sentir sua falta por meia hora.

— E o que eu vou vestir?

— O paletó que eu coloquei em você. É grande, mas cobre.

Ela olhou para o paletó, depois para mim.

— Você está falando sério?

— Absolutamente. E, olha, se alguém perguntar, a gente estava resolvendo um problema de última hora. Casamento tem dessas.

Débora mordeu o lábio. Depois, devagar, começou a baixar o zíper do vestido pelas costas. O tecido cedeu com um suspiro de alívio. Ela puxou o vestido para baixo, revelando a saia rodada que agora estava manchada e amarrotada. Ficou só de combinação — um pedaço de renda bege que cobria o suficiente. Ela vestiu meu paletó por cima, rápido, e abotoou os dois botões da frente.

— Pronto — ela disse, com um sorriso torto. — Agora pareço uma noiva que perdeu a mala no aeroporto.

— Parece uma noiva que finalmente conseguiu respirar.

Ela inspirou fundo, os ombros relaxando.

— É verdade. Esse vestido era uma armadilha.

— Então você fez bem em tirar.

Ela riu de novo. Dessa vez mais alto. E eu percebi que gostava do som.

— Certo — eu disse, pegando o celular. — Vou mandar o motorista buscar uma calça e uma camisa minha no apartamento. Enquanto isso, a gente finge que está tendo uma conversa séria sobre negócios.

— Negócios?

— Claro. O que mais um casal recém-casado faria trancado numa sala? Falar de dinheiro. É o que todo mundo espera.

Ela sentou na beirada da mesa, as pernas balançando. O paletó subiu um pouco, mostrando os joelhos.

— E o que a gente vai falar de verdade?

— Não sei. Me conta alguma coisa porque não sei nada sobre você.

Ela pensou.

— Eu tenho medo de altura. E de palhaço.

— Palhaço?

— Palhaço. Desde criança. Acho que é o sorriso fixo.

— Justo. Eu tenho medo de compromisso. Mas acho que isso a gente já descobriu.

Ela riu, balançando a cabeça.

— E você? O que mais?

— Eu gosto de cozinhar. Ninguém espera isso de um herdeiro, mas é verdade. Faço um macarrão que salva qualquer dia ruim.

— Hum um herdeiro que sabe cozinhar.

— Um dia você vai experimentar.

O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Era um silêncio de quem está aprendendo a dividir o espaço. Eu olhei para ela, sentada na mesa com meu paletó, o cabelo solto e um sorriso que parecia mais real do que qualquer coisa que eu tinha visto na igreja.

— Débora?

— Hum?

— Obrigado por ter vindo.

Ela me olhou, surpresa.

— Você não precisava ter dito isso.

— Mas eu quis.

Ela desviou o olhar, mas o sorriso ficou.

— A gente vai se dar bem, Dante. Quem sabe até vire amigos.

— Amigos? — eu repeti, e o peso da palavra ficou no ar. — É um começo.

O celular vibrou. Era o motorista:" a roupa estava a caminho." Eu guardei o telefone e me virei para ela.

— Pronta para voltar para a festa?

— Se eu estiver usando sua roupa, vão achar que a gente já consumou o casamento.

— Deixa eles pensarem. Pelo menos vão parar de perguntar quando vem o herdeiro.

Ela riu, pulou da mesa, e eu abri a porta. Antes de sair, ela parou.

— Dante?

— Fala.

— Obrigada pelo paletó. E pelo acordo. E por não ter feito essa noite ser um inferno.

— Ainda são só oito horas. A noite é longa.

Ela revirou os olhos, mas o sorriso não sumiu.

E, enquanto a gente voltava para o salão, eu percebi que, pela primeira vez em muito tempo, eu estava curioso para saber o que vinha depois.

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