Chapter 3
Capítulo 3 — O Escritório
Carla enfrenta o castigo de dona Júlia no escritório, mas Rafael a defende novamente, criando uma tensão que deixa todos em alerta.
Carla empurrou a porta do escritório com as mãos trêmulas. A sala era ampla, com estantes de mogno que iam do chão ao teto, repletas de livros que ninguém lia. Dona Júlia estava sentada atrás da mesa, os dedos tamborilando sobre a superfície de madeira. Ao lado dela, uma vara fina de bambu descansava sobre o aparador — um lembrete silencioso do que estava por vir.
— Feche a porta — ordenou dona Júlia, sem levantar os olhos.
Carla obedeceu. O clique da fechadura soou como uma sentença. Ela ficou parada no centro da sala, as mãos entrelaçadas à frente do avental, os olhos fixos no chão de carvalho.
— Sabe por que está aqui? — perguntou dona Júlia, finalmente erguendo o olhar.
— Não, senhora — mentiu Carla, embora soubesse muito bem.
— Mentira. Você sabe. Na frente dos convidados, fazendo papel de coitadinha. Chamando a atenção de Rafael. Você acha que eu não vi?
— Eu não fiz nada — sussurrou Carla.
— Não fez nada? — Dona Júlia se levantou, a cadeira rangendo contra o assoalho. Ela contornou a mesa devagar, cada passo calculado. — Ele pediu que você se sentasse à mesa. E você respondeu. Na minha casa, você não responde sem permissão. Entendeu?
— Sim, senhora.
— E ainda por cima, Mateus foi atrás de você na cozinha. O que ele queria?
Carla hesitou. Se dissesse a verdade, Mateus estaria em apuros. Se mentisse, o castigo seria pior.
— Ele só queria saber se eu estava bem — disse, escolhendo a verdade parcial.
— Claro que queria — dona Júlia bufou. — Você é uma distração. Desde que chegou aqui, só trouxe problemas.
Ela parou na frente de Carla, tão perto que Carla podia sentir o perfume forte de rosas que a mulher usava.
— Levante a cabeça e olhe para mim quando eu estou falando.
Carla ergueu os olhos com esforço. O rosto de dona Júlia estava impassível, mas os olhos queimavam com uma frieza que gelava o sangue.
— Vou ser clara — disse dona Júlia, a voz baixa e cortante. — Você vai ficar longe de Rafael. Não vai olhar para ele, não vai falar com ele, não vai passar perto dele. Se ele vier até você, você se afasta. Entendeu?
— Entendi.
— E se eu descobrir que você desobedeceu, não vai gostar das consequências. A última vez que você me desobedeceu, passou três dias sem comer. Lembra?
Carla engoliu em seco. Lembrava. Cada momento daqueles dias vazios, o estômago doendo, a cabeça girando.
— Lembro — murmurou.
— Bom. Agora, vamos ao castigo de hoje. Estenda as mãos.
Carla fechou os olhos por um instante, depois estendeu as palmas para cima. Dona Júlia pegou a vara de bambu e bateu com força três vezes em cada mão. A dor era aguda, queimando como fogo. Carla mordeu o lábio para não gritar.
— Pode ir — disse dona Júlia, colocando a vara de volta no lugar. — E não se esqueça do que eu disse.
Carla baixou as mãos, as palmas vermelhas e latejantes. Ela saiu do escritório sem olhar para trás, as lágrimas finalmente escapando quando a porta se fechou.
No corredor, ela parou para respirar. As mãos doíam tanto que mal conseguia fechá-las. Ela as levou até a boca e soprou, tentando aliviar a ardência.
— Carla?
A voz era de Rafael. Ela se virou e o viu no fim do corredor, com um copo na mão. Ele se aproximou, e quando viu as mãos dela, seus olhos se arregalaram.
— O que aconteceu? — perguntou, pegando as mãos dela com cuidado. — Suas mãos estão vermelhas e inchadas.
Carla tentou puxá-las de volta, mas ele não soltou.
— Não foi nada — disse ela, a voz falhando. — Eu só… caí.
— Mentira — Rafael disse, com firmeza. — Isso não foi queda. Foram golpes.
Ele olhou para o escritório, depois para Carla. Seu rosto se fechou numa expressão séria.
— Foi dona Júlia, não foi?
Carla não respondeu, mas o silêncio era uma confissão.
— Venha comigo — ele disse, puxando-a suavemente pelo braço.
— Não posso. Ela vai ficar furiosa se me vir com você.
— Ela já está furiosa, pelo que vejo. Venha.
Ele a levou até a cozinha, onde a luz era mais clara. Abriu a torneira e deixou a água fria correr sobre as mãos de Carla. Ela gemeu baixinho com o contato, mas a sensação de alívio veio em seguida.
— Fique aqui — ele disse. — Vou buscar uma pomada.
— Rafael, não precisa…
— Fique — ele repetiu, e saiu.
Carla ficou sozinha, as mãos debaixo da água. O coração batia descompassado. Ele não deveria estar fazendo aquilo. Era perigoso. Para ele também.
Rafael voltou minutos depois com um tubo de pomada e um pano limpo. Ele secou as mãos dela com cuidado e começou a passar a pomada, os dedos dele tocando a pele ferida com uma leveza que contrastava com a violência que ela acabara de sofrer.
— Por que você está fazendo isso? — Carla perguntou, a voz quase um sussurro.
— Porque você merece cuidado — ele respondeu, sem desviar o olhar das mãos dela. — Não importa o que digam.
— Você não me conhece.
— Conheço o suficiente. Sei que você é forte. Sei que você aguenta coisas que ninguém deveria aguentar. E sei que você merece mais.
Carla sentiu os olhos se encherem de lágrimas novamente. Ela as conteve com força.
— Amanhã você vai embora — disse. — E tudo isso vai passar.
— Não vou embora amanhã. Vou ficar mais alguns dias. Negócios do seu pai. E enquanto eu estiver aqui, vou cuidar de você.
— Não pode. A dona Júlia…
— Não me importa a dona Júlia — Rafael disse, terminando de passar a pomada. Ele enrolou o pano e guardou o tubo no bolso. — Pronto. Vai doer um pouco ainda, mas amanhã estará melhor.
Carla olhou para as mãos, agora cobertas por uma camada branca de pomada. A dor tinha diminuído, mas o aperto no peito só aumentava.
— Obrigada — disse, baixinho.
— Não precisa agradecer — Rafael respondeu, com um sorriso triste. — Você não deveria passar por isso. Ninguém deveria.
Ele se aproximou um passo, e por um instante, Carla pensou que ele fosse abraçá-la. Mas ele apenas tocou o ombro dela, um gesto rápido e leve.
— Vou indo — disse ele. — Se precisar de algo, estou no quarto de hóspedes. Não hesite em me chamar.
Ele saiu, deixando Carla sozinha na cozinha. Ela ficou parada, as mãos ainda doloridas, o coração em tumulto. O lenço de Mateus ainda estava no bolso do avental. Ela o tocou, sentindo o tecido macio.
Dois homens que a tratavam como gente. Dois homens que prometiam ajuda. Mas ela sabia que aquilo não poderia durar. Em algum momento, a realidade voltaria.
Ela suspirou e começou a lavar a louça do jantar, as mãos protestando a cada movimento. A água quente ardia nas palmas, mas ela ignorou a dor. Era melhor do que pensar.
De repente, a porta da cozinha se abriu. Era Isabela, com um sorriso nos lábios.
— Mamãe disse para você ir ao quarto dela antes de dormir. Ela quer falar com você de novo.
O coração de Carla parou por um segundo. Outra conversa. Outro castigo.
— Agora? — perguntou, a voz fraca.
— Agora — Isabela confirmou, com um brilho de maldade nos olhos. — E não demore. Você sabe como ela fica impaciente.
Carla secou as mãos no avental, sentindo a pomada se espalhar. O lenço de Mateus estava ali, uma pequena âncora de esperança. Ela respirou fundo e saiu da cozinha, seguindo Isabela pelo corredor escuro.
Quando chegou à porta do quarto de dona Júlia, Isabela se virou para ela.
— Boa sorte — disse, com um sorriso que não era de solidariedade. — Você vai precisar.
Ela se afastou, deixando Carla sozinha diante da porta. Carla levantou a mão para bater, mas antes que pudesse tocar a madeira, ouviu vozes lá dentro. A voz de dona Júlia, e outra voz. Uma voz masculina.
— Ele está se aproximando demais dela — dizia dona Júlia. — Precisamos fazer alguma coisa.
— Júlia, tenha calma — era a voz de senhor Alfredo. — Rafael é um convidado. Não podemos simplesmente…
— Podemos sim. Ou ele sai, ou ela sai. Não vou tolerar que uma empregada coloque em risco os negócios da família.
Carla prendeu a respiração. Os negócios da família. Que negócios? E o que ela tinha a ver com isso?
Ela bateu na porta, interrompendo a conversa.
— Entre — disse dona Júlia, a voz agora controlada.
Carla abriu a porta. Dona Júlia estava sentada na cama, com um robe de seda. Senhor Alfredo estava de pé perto da janela, com as mãos nos bolsos.
— Feche a porta — ordenou dona Júlia.
Carla obedeceu. O clique da fechadura soou novamente, e ela soube que a noite estava longe de terminar.