Chapter 2
Capítulo 2 — O Jantar
Carla é humilhada durante o jantar com os convidados, mas Rafael a defende, despertando a fúria de dona Júlia e a curiosidade de Isabela. Mateus observa tudo com preocupação.
Carla sentiu o calor da mão de Rafael por um instante antes de dona Júlia tossir alto, um aviso claro. Ela soltou o aperto como se tivesse tocado fogo e baixou os olhos para o chão de mármore.
— Vá buscar a água que eu pedi, menina — ordenou dona Júlia, com a voz doce demais para ser genuína. — E não demore.
Carla saiu da sala apressada, o coração batendo forte. Na cozinha, apoiou-se na pia e respirou fundo. O lenço de Mateus ainda estava enrolado em seu dedo, agora seco e manchado. Ela o guardou no bolso do avental, como um tesouro secreto.
Enquanto enchia o jarro de cristal com água filtrada, seus pensamentos iam e vinham. Rafael. Ele a olhara como se ela fosse alguém importante. Mas aquilo era perigoso. Pessoas assim não duravam na vida dela. Sempre havia um preço.
— Carla! — a voz de Isabela veio da porta da cozinha. — O que está fazendo? Mamãe está esperando!
— Já vou — respondeu Carla, pegando o jarro com as mãos trêmulas.
Isabela cruzou os braços, os olhos percorrendo Carla com desprezo. Ela usava um vestido azul claro que combinava com os olhos, e os cabelos loiros estavam perfeitamente penteados.
— Você está horrível hoje. Tenta pelo menos não envergonhar a família na frente dos convidados. Fique no canto e não abra a boca.
— Sim, senhora.
Carla passou por Isabela e voltou à sala de jantar. Os convidados já estavam sentados à mesa comprida, coberta com uma toalha de linho branco e pratos de porcelana. Senhor Alfredo estava na cabeceira, ao lado de dona Júlia. Mateus estava do outro lado, e Rafael ao lado dele. Havia também um casal mais velho, que Carla não conhecia.
Ela serviu a água em silêncio, mantendo os olhos baixos. Quando chegou perto de Rafael, ele sorriu.
— Obrigado, Carla.
Ela não respondeu, apenas inclinou a cabeça e continuou. Mas dona Júlia não perdeu a oportunidade.
— Ela é muito tímida — disse a mãe adotiva, com um riso leve. — Não estamos acostumados a ter convidados. A casa fica tão sossegada.
— É uma casa linda — disse a senhora mais velha. — E a comida está deliciosa, Júlia. Você mesma cozinhou?
— Claro que não — respondeu dona Júlia, com um sorriso falso. — A Carla é quem cozinha. Ela é muito útil, apesar de… bem, vocês entendem.
O silêncio caiu sobre a mesa. O senhor mais velho tossiu. Carla sentiu o rosto queimar, mas continuou servindo a água, fingindo que não ouvia.
— Ela é sua filha adotiva, não é? — perguntou Rafael, quebrando o silêncio.
Dona Júlia franziu a testa.
— Bem, sim. Mas…
— Então ela é parte da família — completou Rafael, com um tom firme. — Deveria estar sentada à mesa conosco.
Carla prendeu a respiração. Todos os olhos se voltaram para ela. Senhor Alfredo pigarreou, claramente desconfortável. Mateus olhou para Rafael com surpresa, mas também com um brilho de aprovação.
— Isso é… incomum — disse dona Júlia, forçando um sorriso. — Mas ela prefere ajudar na cozinha. Não é, Carla?
Carla abriu a boca para responder, mas Rafael falou primeiro.
— Pergunte a ela.
O silêncio se esticou como um elástico prestes a quebrar. Dona Júlia olhou para Carla com um aviso nos olhos: a resposta certa era “sim”.
— Eu… — Carla hesitou. As palavras de Rafael ainda ecoavam. Ela era parte da família? Nunca se sentira assim. — Eu prefiro servir — disse finalmente, baixinho.
Rafael a estudou por um momento, depois acenou com a cabeça, como se entendesse algo que os outros não viam.
— Como quiser — ele disse, mas o tom era suave, quase respeitoso.
O jantar continuou, mas Carla sentia o peso dos olhares. Isabela a observava com desconfiança. Dona Júlia mal continha a raiva. E Mateus… Mateus a olhava com uma preocupação que aqueceu seu peito.
Quando a sobremesa foi servida, Carla finalmente pôde se retirar para a cozinha. Lá, sentou-se no banco perto do fogão e deixou as lágrimas escorrerem. Não sabia se era de medo ou de gratidão. Rafael a tratara como gente. Como alguém que importava.
— Carla?
Ela ergueu os olhos e viu Mateus na porta. Ele entrou devagar, fechou a porta atrás de si.
— Você está bem? — ele perguntou, sentando-se ao lado dela.
— Estou — mentiu, enxugando as lágrimas com a manga.
— Ele é diferente, não é? — disse Mateus, referindo-se a Rafael. — Eu nunca vi ninguém falar assim com minha mãe.
— Ele não sabe como as coisas funcionam aqui — Carla murmurou. — Amanhã ele vai embora e tudo volta ao normal.
— Talvez não — disse Mateus, com um suspiro. — Ele vai ficar alguns dias. Negócios do meu pai.
Carla sentiu um frio na barriga. Mais dias significava mais oportunidades de dona Júlia se vingar.
— Você precisa ter cuidado — Mateus continuou, inclinando-se para perto. — Minha mãe já está desconfiada. Se ela achar que você está tentando chamar a atenção de Rafael…
— Eu não tentei nada! — Carla protestou, mas sua voz saiu fraca.
— Eu sei. Mas ela não vai acreditar. Então fique longe dele, pelo menos enquanto eu não descobrir como ajudar você.
Ajudar. A palavra soou como música para Carla. Ela olhou para Mateus, para os olhos verdes que brilhavam à luz do fogo.
— Você faria isso? — perguntou, quase sem acreditar.
— Sim — ele respondeu, com firmeza. — Você merece mais do que isso, Carla. Muito mais.
Antes que ela pudesse responder, a porta da cozinha se abriu de repente. Era Isabela, com um sorriso malicioso.
— Mamãe está chamando, Mateus. E Carla, ela quer que você vá ao escritório. Agora.
O coração de Carla disparou. O escritório era onde dona Júlia aplicava seus castigos mais criativos.
Mateus se levantou, com o semblante preocupado.
— Vou com você — ele disse, mas Isabela o segurou pelo braço.
— Mamãe quer falar com ela sozinha. Não se meta.
Mateus hesitou, mas no final obedeceu, saindo com Isabela. Carla ficou sozinha na cozinha, o lenço de Mateus ainda no bolso, o coração aos pulos.
Ela se levantou, alisou o avental e caminhou até o escritório. A porta estava entreaberta. Ela ouviu a voz de dona Júlia, fria como aço.
— Entre, Carla. Temos muito o que conversar.