Chapter 1
Capítulo 1
Carla, uma jovem adotada por uma família rica, enfrenta mais um dia de humilhações e maus-tratos, mas encontra um momento de esperança ao conhecer alguém que a trata com gentileza.
— Você não é nada aqui, Carla. Lembre-se disso.
A voz de dona Júlia ainda ecoava nos ouvidos de Carla enquanto ela esfregava o chão da cozinha com uma escova já gasta. O joelho doía contra as lajes frias, e as mãos, vermelhas e rachadas pelo sabão, tremiam de cansaço. Eram seis da manhã, e ela já estava acordada desde as quatro, quando a filha mais velha da família, Isabela, a acordara com um copo de água fria no rosto.
— Levanta, serviçal. Mamãe quer o café pronto antes do sol nascer.
Carla não respondeu. Nunca respondia. Aprendera cedo que palavras só traziam mais castigos. Ela era a filha adotiva dos Almeida, uma das famílias mais ricas da cidade, mas desde que entrara naquela casa, aos oito anos, sua vida se tornara um pesadelo. O que deveria ser um lar era uma prisão disfarçada de caridade.
— A menina ainda está aí? — a voz de dona Júlia veio da sala, afiada como navalha. — Termina logo essa cozinha e vai arrumar os quartos. Hoje temos visitas importantes, e não quero você aparecendo na frente deles. Fique nos fundos.
— Sim, senhora — murmurou Carla, sem levantar os olhos.
Ela terminou a cozinha em silêncio, enxugou as mãos no avental surrado e subiu as escadas dos fundos, as que os empregados usavam. A casa era imensa, com móveis antigos e lustres de cristal que brilhavam sob a luz da manhã. Carla passou pelo corredor do segundo andar, onde os retratos dos Almeida sorriam das paredes. Nenhum deles incluía seu rosto.
No quarto de Isabela, a bagunça era proposital. Roupas espalhadas, maquiagem derrubada no tapete branco, um copo quebrado perto da cama. Carla ajoelhou-se para catar os cacos, e um deles cortou seu dedo indicador. Ela prendeu a respiração para não gritar, apertou o ferimento com a barra da saia e continuou. Não havia tempo para dor.
— Carla?
A voz era suave, diferente. Ela se virou e viu Mateus, o filho mais novo dos Almeida, parado na porta. Ele tinha vinte e dois anos, dois a mais que ela, e sempre a olhava de um jeito que ela não sabia interpretar. Não era cruel como Isabela, nem indiferente como os pais. Era… gentil.
— O que foi? — ela perguntou, baixinho, sem parar de catar os cacos.
— Você está machucada. Deixa eu ver.
Ele se aproximou e, antes que Carla pudesse recuar, segurou sua mão com delicadeza. O toque fez seu coração disparar. Ela olhou para os dedos dele, limpos e bem cuidados, contrastando com os dela, calejados e sujos.
— Não é nada — ela disse, tentando puxar a mão de volta, mas ele não soltou.
— É sangue. Você precisa de um curativo.
Mateus tirou um lenço do bolso e enrolou no dedo dela com cuidado. Carla sentiu o calor das mãos dele, o cheiro de sabonete fino. Por um instante, esqueceu onde estava.
— Obrigada — sussurrou, sem coragem de erguer os olhos.
— Não precisa agradecer. Eu… — ele hesitou, os olhos verdes encontrando os dela. — Eu queria que as coisas fossem diferentes aqui. Para você.
Carla prendeu a respiração. Ninguém nunca dissera aquilo. Ela abriu a boca para responder, mas passos pesados soaram no corredor. Era seu pai adotivo, senhor Alfredo.
— Mateus! O que está fazendo com a empregada? Desça agora. Os convidados chegaram.
Mateus soltou a mão dela rapidamente, mas antes de sair, lançou um último olhar. Ele parecia querer dizer algo, mas apenas balançou a cabeça e foi embora.
Carla ficou sozinha no quarto, o lenço branco manchado de vermelho ainda enrolado no dedo. Ela o apertou contra o peito, sentindo o tecido macio, e uma sensação estranha brotou dentro dela. Não era alegria, nem esperança exatamente. Era algo mais frágil, como uma semente que precisava de luz para crescer.
Ela terminou de arrumar o quarto em silêncio, mas agora seus pensamentos estavam em outro lugar. Nas mãos dele. No toque. Na promessa silenciosa que seus olhos fizeram.
Quando desceu para a cozinha, já era tarde. Os convidados estavam na sala de jantar, e dona Júlia a chamou aos gritos.
— Carla! Venha aqui agora! Você esqueceu de servir a água! Sua inútil!
Carla correu, mas quando entrou na sala, parou. Ao lado de dona Júlia, sentado à mesa, estava um jovem que ela nunca vira antes. Ele era alto, de cabelos castanhos e olhos escuros que a examinaram com uma curiosidade que a fez estremecer. Não era Mateus. Era alguém novo, alguém que não conhecia seu lugar naquela casa.
— Quem é ela? — o jovem perguntou, com um sotaque leve que Carla não reconheceu.
— Ninguém — respondeu dona Júlia, com um sorriso forçado. — Apenas a empregada.
Mas o jovem continuou olhando para Carla, e havia algo naquele olhar que a fazia sentir-se vista pela primeira vez em muito tempo.
— Prazer — ele disse, estendendo a mão. — Meu nome é Rafael.
Carla olhou para a mão estendida, depois para dona Júlia, cujo olhar prometia punição. Mas, pela primeira vez, ela não se importou. Lentamente, estendeu a mão e tocou a dele.
— Carla — sussurrou.
O sorriso de Rafael foi como uma fresta de luz numa sala escura.