Chapter 1
Capítulo 1
Ana Carolina, no auge de sua carreira, lida com os preparativos para uma grande turnê enquanto enfrenta a tensão de reencontrar Beatriz, uma colega de infância invejosa, e recebe um telefonema perturbador de Gabriel, seu ex-namorado tóxico.
— Não, Gabriela, eu não vou cantar aquela música. Ela é muito... pessoal.
Ana Carolina jogou o tablet sobre o sofá de veludo azul do camarim e cruzou os braços. O espelho iluminado refletia seu rosto cansado, mas ainda assim imponente. A turnê mundial começava em três semanas e a setlist ainda não estava fechada.
Gabriela suspirou, ajustando o blazer branco impecável. — Essa música é a que o público mais espera. É a que te conecta com sua história. Você não pode fugir disso para sempre.
— Eu não estou fugindo. Estou escolhendo. — Ana desviou o olhar, fixando-se no próprio reflexo. — Aquela letra foi escrita em um momento que não existe mais.
André entrou no camarim com duas xícaras de café. Colocou uma sobre a mesa de centro e estendeu a outra para Gabriela, que aceitou com um sorriso breve. — O café está do jeito que você gosta, chefe — disse ele, dirigindo-se a Ana. — E tem uma visita para você lá fora. Beatriz.
O nome pairou no ar como uma nota desafinada. Ana sentiu um aperto no estômago. Beatriz. A garota que cantava no coral da igreja com ela, que sempre a observava com aquele sorriso forçado enquanto dizia: "Nossa, Carol, você tem tanta sorte." Sorte. Como se suor e lágrimas não existissem.
— Manda entrar — ordenou Ana, endireitando a postura. — Mas fica por perto.
Beatriz entrou com passos calculados, um vestido vermelho que gritava por atenção. — Ana! Meu Deus, quanto tempo! Você está maravilhosa, como sempre. — Abraçou-a com um aperto rápido, quase frio. — Vi que vai começar a turnê. Que incrível. Lembra quando a gente ensaiava no porão da igreja? Parece outra vida.
— Outra vida mesmo — respondeu Ana, mantendo a voz neutra. — O que te traz aqui?
— Ah, estou trabalhando como corista em alguns estúdios. Ouvi dizer que sua produção está contratando vozes para a abertura. Pensei em me candidatar. — Beatriz sorriu, mas o brilho nos olhos era mais afiado do que doce. — Afinal, quem melhor do que alguém que te conhece desde o começo?
Ana sentiu o peso da provocação. Era uma oferta que vinha com uma sombra: a lembrança de que Beatriz sempre esteve ali, comparando, medindo, esperando o tropeço.
— Vou pensar — disse Ana, já se levantando. — André vai anotar seus contatos. Agora, preciso me preparar para o ensaio.
Beatriz inclinou a cabeça. — Claro, claro. Você sempre tão ocupada. Mas não se preocupe, eu espero. Tenho paciência.
Quando a porta se fechou atrás dela, Gabriela se aproximou. — Ela é boa, mas tem um jeito... — Não terminou a frase.
— Eu sei — cortou Ana. — Mas talento é talento. E eu não posso deixar o passado ditar o presente.
O ensaio foi intenso. Ana entregou cada nota como se fosse a última, mas uma inquietação roía seu peito. Durante uma pausa, seu celular vibrou. Número desconhecido. Ela atendeu, esperando ser mais um fã ou um jornalista.
— Ana. — A voz do outro lado era familiar, mas distorcida por uma ironia doentia. — Senti saudades. Você acha que pode simplesmente me apagar da sua vida?
Gabriel. O som do nome ecoou como um trovão. Ela apertou o telefone com tanta força que os dedos doeram.
— Como conseguiu esse número? — sussurrou, tentando manter a calma.
— Não importa. Só queria que você soubesse que ainda estou por aqui. E que não vou deixar você brilhar enquanto eu apodreço na sua sombra. — A linha foi desligada.
Ana ficou paralisada. O camarim parecia menor, o ar mais pesado. Ela olhou para a porta, onde André observava, preocupado. — Tudo bem, chefe?
— Preciso de um minuto — respondeu, a voz trêmula.
Sentou-se no sofá, o coração galopando. Gabriel estava de volta. E ela sabia, no fundo, que ele não viria sozinho.
No canto da sala, uma pasta preta chamou sua atenção. André a deixara ali mais cedo. O logotipo do estúdio de Beatriz estava estampado. Ana a abriu, folheando as partituras. No final, um bilhete escrito à mão: "Para quando você precisar lembrar de onde veio. Com carinho, B."
Ela franziu o cenho. A letra era a mesma de anos atrás, mas o tom... algo não se encaixava.
— André — chamou. — Quero que pesquise tudo sobre Beatriz. Contratos, trabalhos recentes, contatos. Tudo.
— Sim, chefe.
Ana olhou para o reflexo no espelho. A estrela que brilhava no palco agora enfrentava um jogo de sombras. Ela apertou o bilhete na mão e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu o desejo de cantar aquela música pessoal. Não para o público. Para si mesma. Para entender até onde as raízes ainda a seguravam.
O celular vibrou outra vez. Uma mensagem de texto: "A turnê vai ser um sucesso. Mas sucessos têm preço. Você não aprendeu ainda? — G."
Ana Carolina fechou os olhos. Então era isso. O passado não era apenas uma lembrança. Era uma dívida que alguém queria cobrar.