Chapter 2
O Banho da Meia Encantada
Karuna adentra a floresta ao anoitecer e encontra o espírito travesso, uma criatura solitária e malvestida. Durante o diálogo, o espírito revela seu segredo: perdeu sua meia mágica e agora está preso na forma de um menino fedorento, incapaz de voltar para casa. Karuna usa as ervas aromáticas e água limpa para lavar a meia, purificando-a e quebrando o feitiço. O espírito agradece e promete não mais causar desordem, e a aldeia começa a voltar ao normal.
O vento parou. A voz, fina e aguda como o pio de um grilo, veio de trás de uma árvore retortida. Karuna apertou as ervas no bolso do avental e engoliu em seco. Não podia mostar medo. O mestre Tobias disera que a bondade era a única arma que funcionava.
— Eu trouxe a sua meia — ela repetiu, mais alta dessa vez, fazendo a voz não tremer. — E vim mesmo para te dar um banho.
Houve um silêncio. Depois, um risinho, como o de uma criançã que acredita que está brincando de esconder mas quer ser encontrada. Então, do meio das árvores, surgiu uma figura baixa, com cabelos desgrenhados e roupas remendadas. O menino — ou o quie aquilo fose — tinha olhos grandes e brilhantes, cor de castanha molhada, mas sua pele estava coberta de poeira e, sim, um cheiro fortíssimo de meia suja, de floresta preservada, de coisas que não viam água há séculos.
— Banho? — ele disse, torcendo o nariz. — Banho é coisa de humano cheiroso. Eu gosto do meu cheiro. É o cheiro da liberdade.
Ele deu um passo em frente, e Karuna viu que segurava a meia que ela tinha deixado em casa. Como ele tinha pego? O coração parou. Mas não era a meia que estava no cesto? Ou era? A meia que ele segurava era a mesma — suja, com uma mancha verde no calcanhar, a lã meio desfiada. E era tambem o que ela carregava no bolso? Ela olhou para o bolso e viu as ervas, mas a meia não estava mais lá. Tinha desaparecido.
— Ela é sua, então — disse Karuna, tentando manter a calma. — E você é quem está causando o cheiro ruim na aldeia.
O espírito — pois era realmente um, com sua pele pálida e seus olhos que brilhavam no escuro — deu de ombros. Seus movimentos eram rápidos, como os de um passarinho.
— É o que eu faço. Eu gosto de bagunça. Gosto de ver as pessoas coçando o nariz, espirando, resmungando. É engraçado.
Ele riu de nova, mas o riso era mais curto, mais triste. Karuna lembrou do que o mestre Tobias disera. Este espírito era solitário. Sua travessura era um pedido de atenção.
— Você está sozinho, não está? — ela perguntou, com a voz baixinha, como se falasse com um bicho assustado.
O olhar do espírito mudou. Ele parou de balançar a meia e a fixou nela, de repente muito sério.
— Como você sabe? — perguntou, e a voz perdeu o tom de brincadeira.
— Por que eu tambem ás vezes sinto isso — respondeu Karuna. — A gente s ente sozinho quando ninguém presta atenção na gente. Mas bagunça não é o jeito certo de chamar a atenção. Você estragou o dia do padeiro, da Rosa, do ferreiro. Eles ficaram tristes, com medo. Não é isso que você quer, é?
O espírito olhou para o chão, para a meia suja em suas mãos. Ela viu que ele mordia o lábio, como uma criança que vai chorar.
— Eu... eu perdi minha casa — ele disse, a voz agora fina e quase sumindo. — Eu sou o guardião desta meia. Ela é minha casa, minha cama, meu mundo. Eu vivo dentro dela, viajo com o vento. Mas um dia, ela caiu, e eu fiquei preso aqui, neste pedaço de lã. Não consigo voltar para a floresta profunda. Fico neste lugar, perto da aldeia, vendo as pessoas felizes, e isso me faz mal. Aí eu comecei a brincar, a sujar tudo, a fazer cheiro ruim. Era a única coisa que eu sabia fazer para sentir que existo.
Karuna sentiu o coração se apertar. O segredo do espírito não era maldade. Era tristeza. Ela se ajoelhou na frente dele, que era um pouco mais baixo do que ela.
— Eu posso te ajudar — disse. — Mas você precisa querer. Vou lavar sua meia, com ervas que limpam e curam. Depois, você poderá voltar para a floresta, para sua casa.
O espírito ergueu o olhar. As lágrimas brilhavam em suas pestanas.
— Lavar? Mas... eu nunca lavei. Minha meia é assim desde sempre.
— Então está na hora de uma mudança.
Karuna tirou as ervas do bolso. A lavanda, o alecrim e a arruda cheiravam frescos, como uma brisa de primavera. Ela encontrou uma poça de água limpa perto do carvalho velho, onde a lua se refletia. Pegou a meia — que o espírito, agora mais confiante, lhe entregou — e a mergulhou na água.
Enquanto esfregava, ela cantarolou uma canção antiga, que a avó cantava para acalentar os sonhos. O espírito a observava, quieto, sentado numa pedra. A meia, antes escura e encardida, começou a soltar uma névoa fina, como fumaça. O cheiro forte foi sumindo, substituído pelo aroma doce das ervas.
— Dói? — perguntou Karuna.
— Não... é como se tirassem um peso de cima de mim — respondeu o espírito, surpreso. — É bom.
Ela lavou até que a água ficasse límpida, até que a lã ficasse macia e brilhante. Depois, torceu a meia com cuidado e a estendeu no galho de uma árvore, para secar ao vento da noite.
O espírito, agora, tinha uma aparência diferente. Sua pele não era mais pálida, mas rosada. Seus cabelos se assentaram, soltando pequenas luzes, como vaga-lumes. Ele estava limpo, e seu cheiro era de terra úmida e flores silvestres.
— Obrigado — ele disse, com a voz clara e cheia de gratidão. — Ninguém nunca tinha sido tão bondoso comigo.
Karuna sorriu.
— Agora você pode voltar para casa.
— Sim — ele pegou a meia, ainda úmida, e a enrolou em volta do pescoço como uma echarpe. — Vou para a floresta profunda, onde o rio canta e as estrelas dormem. Nunca mais vou atrapalhar sua aldeia.
Ele deu um passo para trás, e o ar ao redor dele começoou a bri lhar, como se o orvalho se levamtas se. Antes de suma pr completa mente, ele se virou e dis se:
— Karuna, cuida do daquela meia. Ela tem po der. Quem a usar com bon dade po derá fa zer gran des coi sas.
De pois dis so, el e se foi. O ven to le vou sua ima gem, e a luas ilu mi nou o car val ho ve lho, on de a meia se ca va.
Karuna ficou ali por alguns moments, sentindo a paz que tomava conta da floresta. Ela sabia que a aldeia estaria melhor no dia se guinte. O pa deiro acor da ria com pão fres co, o fer re iro riria de no vo, e a pequena Rosa não coçaria mais o braço.
Ela voltou para a aldeia com o coração leve. Na mão, guardava um punhado de ervas que sobraram, e no peito, a lembrança do segredo revelado: que até os espíritos mais travessos precisam, ás vezes, de um banho e de um pouco de compaixão.
Na manhã se guinte, quando Karuna acordou, o cheiro da floresta entrou pela janela, fresco e limpo. Ela sorriu. A meia encantada, agora purificada, estava onde ela a deichara, no galho do carvalho. Mas, quando olhou de novo, ela tinha sumido. O espírito havia voltado para sua casa, levando consigo a meia que, agora, era um símbolo de amizade, não mais de travessura.
E a aldeia, graças à bondade de uma jovem, estava em paz mais uma vez.