Chapter 1
Capítulo 1
Karuna encontra uma meia suja e fedorenta perto da floresta, sente um medo estranho ao tocá-la e a leva para a aldeia. Pequenos transtornos começam a acontecer: pessoas ficam malcheirosas e agem de forma estranha. O velho sábio reconhece a meia como pertencente a um espírito travesso da floresta e orienta Karuna a confrontá-lo com bondade.
A aldeia de Pedra Fria dormia sob um manto de névoa fina. O sol, ainda tímido, pintava de laranja as palhas dos telhados. Karuna caminhava pela vereda que contornava a floresta, seu cesto de vime cheio de ervas colhidas ao amanhecer. O cheiro de alecrim e hortelã se misturava com o orvalho que ainda molhava a terra. Ela cantarolava baixinho, uma canção que sua avó lhe ensinara, sobre passarinhos que bebiam em conchas de nozes.
De repente, algo lhe chamou a atenção. Ali, na beira do caminho, entre raízes de uma figueira brava, havia uma meia. Uma meia de lã grossa, suja de barro, com manchas escuras que pareciam ter vindo de muito fundo. O cheiro, quando o vento soprava, era forte e desagradável. Não era um cheiro comum de suor ou terra molhada. Era algo rançoso, doce e amargo ao mesmo tempo, como leite azedo misturado com folhas podres. Karuna franziu o nariz, mas não conseguiu desviar o olhar.
Havia algo naquela meia que a chamava. Uma sensação estranha, um formigamento nos dedos, como se o objeto estivesse vivo. Ela hesitou. Poderia seguir em frente, ignorá-lo. Mas a gentileza que habitava seu coração falou mais alto. Quem teria perdido aquela meia? Talvez um viajante, ou uma criança da aldeia. Ela não podia deixar lixo sujando o caminho.
Karuna se ajoelhou, apoiou o cesto no chão e estendeu a mão. Quando seus dedos tocaram a lã, um arrepio percorreu seu braço. Não era frio, nem calor. Era como se uma corrente de ar invisível e pegajosa passasse por ela. O medo, um medo que ela nunca sentira antes, apertou seu peito. Era um medo de coisas antigas, de segredos da floresta, de histórias que as avós contavam em noites de tempestade. Ela quase largou a meia, mas sua determinação, teimosa e calma, segurou firme.
— Vou levá-la para a aldeia — disse a si mesma, em voz baixa. — Alguém deve estar sentindo falta.
Ela colocou a meia no cesto, sobre as ervas. O cheiro, agora, parecia mais forte, como se a meia estivesse feliz por ter sido encontrada. Karuna sacudiu a cabeça, afastando pensamentos tolos. Era apenas uma meia velha.
Ao chegar na aldeia, o sol já estava mais alto. O padeiro abria sua porta, uma nuvem de vapor quente escapando para o ar fresco. O ferreiro martelava numa roda de carroça, e as crianças brincavam na praça, perto do chafariz. Tudo parecia normal. Mas Karuna notou algo estranho. O padeiro, ao cumprimentá-la, espirrou três vezes. O cheiro de pão fresco, que sempre era tão agradável, agora tinha um toque azedo. O ferreiro, que costumava rir alto, resmungava baixinho, e gotas de suor escorriam de sua testa, um suor com odor forte e desagradável.
— Bom dia, seu Anselmo — disse Karuna, passando pela ferraria. O homem grunhiu, e ela sentiu o cheiro da meia se misturar com o do suor. Era estranho. Muito estranho.
Na praça, as crianças, que sempre corriam e riam, estavam paradas, encostadas umas nas outras, com expressões sonolentas. Uma delas, a pequena Rosa, coçava o braço sem parar, e havia uma mancha escura em sua manga. Karuna se aproximou.
— Rosa, está tudo bem? — perguntou, ajoelhando-se.
A menina olhou para ela com olhos vidrados.
— Estou com cheiro ruim — disse, com a voz embargada. — Minha mãe disse que eu fedo.
Karuna sentiu o coração apertar. Ela olhou para o cesto, para a meia que estava ali. Será que aquilo tinha alguma coisa a ver? Ela não sabia explicar, mas uma certeza silenciosa se formou dentro dela.
Deixou o cesto em casa, na cozinha, longe dos alimentos. Lavou as mãos com água e sabão, mas o cheiro ainda parecia grudado em sua pele. Foi então que decidiu procurar o velho sábio, o mestre Tobias. Ele morava numa cabana no fim da aldeia, perto do moinho. Diziam que ele conhecia as lendas da floresta, que já vira espíritos e que sabia o nome de todas as plantas.
A cabana era pequena, com paredes de pedra cobertas de musgo. Uma fumaça fina saía da chaminé, cheirando a alecrim e incenso. Karuna bateu na porta.
— Entre, minha filha — ouviu uma voz calma, como o ronronar de um gato.
O mestre Tobias estava sentado perto do fogo, remendando uma rede. Seus olhos eram claros, cor de mel, e suas mãos, enrugadas, mas firmes. Ele sorriu ao ver Karuna.
— Hoje você trouxe um cheiro diferente — disse ele, sem que ela falasse nada. — Um cheiro antigo. Um cheiro que não é deste mundo.
Karuna sentou-se no banco de madeira, ao lado do fogo. As brasas crepitavam, e a luz dançava nas paredes. Ela contou sobre a meia, sobre o medo estranho, sobre as mudanças na aldeia. O mestre a ouviu em silêncio, com os olhos semi-cerrados.
Quando ela terminou, ele suspirou.
— Essa meia não é de nenhum aldeão — disse. — Ela pertence a um espírito da floresta. Um espírito travesso, que se alimenta de desordem e de maus odores. Ele gosta de causar confusão, de fazer as pessoas agirem de forma estranha. E essa meia, minha querida, é o canal dele. O espírito está usando a meia para espalhar sua influência.
Karuna sentiu o medo voltar, mas também uma curiosidade.
— O que eu faço? — perguntou. — Posso devolver a meia?
— Não, devolver não adianta. Ele vai continuar. Você precisa confrontá-lo. Mas não com raiva. Não com violência. O espírito é solitário, e sua travessura é uma forma de chamar a atenção. Ele precisa de bondade. De limpeza.
— Limpeza? — repetiu Karuna, lembrando-se do banho que ela mesma queria dar na meia.
— Sim. Você pode purificar a meia com ervas aromáticas, com um ritual de lavagem. Mas primeiro, precisa encontrar o espírito. Ele aparece no crepúsculo, perto do carvalho velho, no coração da floresta. Leve a meia, e leve também seu coração bondoso. É a única arma que funciona.
O mestre Tobias se levantou e foi até uma prateleira, de onde tirou um punhado de ervas secas. Manjerona, lavanda, alecrim e um ramo de arruda.
— Tome. Estas ervas vão ajudar. Mas lembre-se: a verdadeira purificação vem de dentro.
Karuna agradeceu, com a voz trêmula. Ela guardou as ervas no bolso do avental e saiu da cabana. O sol já baixava no horizonte, pintando o céu de tons de cobre. A floresta parecia mais escura, mais densa. O cheiro da meia, que ela deixara em casa, parecia chamá-la, como um fio invisível.
Ela sabia que precisava ir. A aldeia dependia dela. O espírito dependia dela, mesmo sem saber. Respirou fundo, sentiu o cheiro das ervas no bolso e deu o primeiro passo em direção à floresta.
O vento soprou, trazendo o som de folhas secas e um riso distante, fino e agudo, como o de uma criança que brinca sozinha no escuro. Karuna parou, o coração batendo forte. O riso parou. E então, uma voz, sussurrando entre as árvores, disse:
— Você trouxe a minha meia?
Ela apertou as ervas na mão e respondeu, com a voz que tentava ser firme:
— Trouxe. E vim para te dar um banho.