Chapter 1
Capítulo 1: Um Encontro na Chuva
Elara, uma gótica lendo em um café, é interrompida por Lucas, um empresário encharcado pela chuva. Ele se senta à sua mesa, trocam algumas palavras e ela descobre que ele tem um passado literário. Ao sair, ela encontra o cartão dele e, ao devolvê-lo, ele devolve o marcador que ela deixou cair. O contato breve deixa Elara indecisa sobre procurá-lo.
—Você vai molhar todos os livros.
A voz cortou o barulho da chuva lá fora. Elara ergueu os olhos do exemplar surrado de O Castelo de Otranto e viu um homem parado à porta do Café Noturno, o terno escuro encharcado, os cabelos pingando na soleira. Ele segurava uma pasta de couro contra o peito, como se pudesse protegê-la da água que já escorria pelo queixo.
— Desculpe — ele disse, com um sorriso sem graça. — Não queria interromper.
Ela fechou o livro, deixando o marcador de cetim preto aparecer. A cafeteria estava quase vazia naquela tarde cinzenta — só ela e o barista, que limpava copos atrás do balcão. As outras mesas estavam livres, secas, convidativas. Mas ele não se moveu para ocupar nenhuma.
— As outras mesas não mordem — Elara disse, apontando com o queixo para o canto oposto.
O homem riu baixinho. — Eu sei. Mas a sua é a única que tem uma vista decente da chuva.
Ela franziu o cenho, mas não respondeu. Ele era alto, de ombros largos, e mesmo encharcado, havia algo elegante na postura. A barba por fazer contrastava com os punhos da camisa social. Empresário, pensou Elara. Sempre apressado, sempre com cara de quem resolve problemas. Ela odiava esse tipo.
— Senta, então — ela disse, empurrando a cadeira vazia à frente. — Mas não encosta nos meus livros.
Ele agradeceu com um aceno de cabeça e sentou-se, colocando a pasta sobre o colo. O barista trouxe um café extra, que o homem aceitou com gratidão. Elara observou por cima da página: ele bebeu o café em silêncio, os olhos fixos na janela, onde a chuva transformava a rua num borrão cinzento.
Ela tentou voltar à leitura, mas a presença dele era um ruído constante. O cheiro de alfazema barata que ele usava? Não, era algo mais amadeirado, misturado ao cheiro de chuva. Ela se irritou consigo mesma por notar.
— O que você está lendo? — ele perguntou, de repente.
— Um livro sobre castelos mal-assombrados. — Ela não ergueu os olhos. — E não, não vou explicar.
— Eu não ia perguntar. Só queria saber o título. Parece interessante.
Ela finalmente o encarou. Ele tinha olhos castanhos, quase pretos, com uma expressão que não era de deboche, mas de curiosidade genuína. Elara hesitou.
— O Castelo de Otranto. É do Horace Walpole. Século dezoito.
— Gothic, então.
Ela ergueu uma sobrancelha. — Você conhece?
— Meu pai era professor de literatura. Até os doze anos, eu achava que todo mundo lia Drácula no café da manhã. — Ele deu um sorriso triste. — Depois ele morreu, e eu larguei os livros para vender seguros.
Elara não soube o que dizer. Não era o tipo de confissão que ela esperava de um homem de terno molhado. Ela baixou o livro.
— Seguros? Você parece mais... agressivo.
Ele riu, um som surdo. — É o terno. Ele engana as pessoas.
O barista trouxe a conta, mas Elara já estava de pé, guardando o livro na mochila. O homem se levantou também, deixando algumas notas sobre a mesa.
— Obrigado pelo café — ele disse. — E pela companhia.
Ela assentiu, distraída. Saiu pela porta, sentindo a chuva fina no rosto. Já na calçada, enfiou a mão no bolso para pegar o guarda-chuva e encontrou algo de papel: um cartão de visitas, úmido nas bordas. Ela leu: Lucas Almeida, Diretor Comercial, Seguros Aliança. E um número de telefone.
Ele devia ter deixado cair. Ela olhou para trás, mas a porta do Café Noturno estava fechada. A chuva aumentava.
Elara apertou o cartão na mão. Por um instante, pensou em jogá-lo fora. Mas algo a fez guardá-lo no bolso interno da jaqueta, junto com o marcador preto.
Ela virou a esquina, e então ouviu passos rápidos atrás de si.
— Ei! Moça! — A voz dele, ofegante. — Você deixou cair isso.
Ela se virou. Lucas estava parado na chuva, segurando o marcador de cetim preto, que devia ter caído quando ela pegou o cartão. Ele sorriu, o cabelo agora completamente colado na testa.
— Parece importante.
Elara estendeu a mão, mas ele não entregou de imediato. — Você pegou meu cartão.
Ela assentiu, sem jeito. — Sim. Você deixou cair.
— Então agora estamos quites. — Ele colocou o marcador na palma dela, e os dedos se tocaram por um segundo. A pele dele era quente, apesar da chuva fria.
— Obrigada — ela murmurou.
— Eu é que agradeço. — Ele deu meia-volta, e depois parou. — Se quiser trocar livros, ou seguros, sabe onde me encontrar.
Ela riu, surpresa com o próprio som. Ele acenou e desapareceu na chuva.
Elara ficou parada, o marcador molhado na mão. Dentro do bolso, o cartão dele pesava contra o peito. Ela não sabia se o procuraria. Mas, pela primeira vez em meses, sentiu vontade de ligar.
A chuva continuava a cair. Ela abriu o guarda-chuva e decidiu que amanhã pensaria nisso.