Chapter 1
Capítulo 1
Adonai, após um longo dia de trabalho, visita sua avó no aniversário dela. Inicialmente recusa um presente misterioso, mas a avó insiste. Exausta, Adonai se retira para o quarto, onde abre o livro e é puxada para dentro dele, iniciando uma aventura inesperada.
O sol de novembro já se punha sobre a cidade quando Adonai finalmente deixou o escritório. O ar pesado do final da tarde carregava o cheiro de asfalto quente e poluição, um perfume familiar que anunciava o verão que se aproximava. Ela suspirou, sentindo o cansaço acumulado nos ombros. O dia tinha sido longo e tedioso, cheio de planilhas e reuniões que pareciam não levar a lugar nenhum. A vontade era de ir direto para casa, tomar um banho frio e se jogar na cama. Mas hoje não era um dia qualquer. Era o aniversário de sua avó, Dona Carmem, e nem o cansaço mais profundo seria desculpa para faltar àquele encontro.
Adonai entrou no ônibus, que rangia e sacudia por entre o trânsito caótico. As pessoas ao redor, rostos anônimos e cansados, pareciam compartilhar do mesmo fardo do dia. Ela se apoiou em uma barra de metal fria e deixou a mente vagar. Lembrou-se da infância, dos cafés da tarde na casa da avó, das histórias que Carmem contava sobre um Brasil antigo, de quando ela era jovem. As memórias eram um bálsamo, um lembrete de que havia um refúgio além do cinza do cotidiano.
Quando o ônibus finalmente a deixou no ponto de sempre, a rua já estava mais quieta. As casas baixas, com suas fachadas coloridas e portas de madeira, pareciam ter parado no tempo. A casa da avó, no final do quarteirão, era uma das mais antigas, com um jardim na frente que, apesar do descuido dos anos, ainda exibia algumas roseiras bravas. Adonai subiu os degraus de cimento e bateu palmas antes de empurrar o portão de ferro, que rangeu como de costume.
— Ô de casa! — gritou ela, já com um sorriso nos lábios.
A porta da frente se abriu, revelando a figura miúda e encurvada de Dona Carmem. A avó tinha os cabelos brancos presos em um coque frouxo e usava um vestido estampado de flores miúdas. Seus olhos, ainda vivos e curiosos, brilharam ao ver a neta.
— Finalmente chegou, menina! Pensei que não vinha mais. Entre, entre, que já está quase escuro.
Adonai abraçou a avó com cuidado, sentindo o cheiro familiar de talco e canela. A casa era um testemunho de uma vida inteira: móveis de madeira escura, uma cristaleira repleta de louças antigas, e nas paredes, fotografias amareladas que contavam histórias de parentes que ela mal conhecia. No centro da sala, a mesa posta com uma toalha de crochê exibia um bolo simples de chocolate, coberto com uma calda brilhante, e uma garrafa térmica de café.
— A senhora não precisava ter feito tudo isso, vó. Eu já ia chegar logo depois do trabalho.
— Qual o quê, minha filha? Aniversário é uma vez por ano. E eu não faço mais isso por ninguém. Só por você.
Dona Carmem puxou Adonai para a mesa e começou a cortar o bolo. Enquanto comiam, a conversa fluía como sempre, sobre o trabalho, os vizinhos, o calor que estava fazendo. A avó reclamava das dores no joelho, mas logo se animava ao falar sobre as novelas. Adonai ouvia, agradecida pela normalidade daquele momento. Aos poucos, o peso do dia foi se dissipando.
Foi quando o relógio de parede deu oito badaladas que Dona Carmem se levantou com um sorriso misterioso.
— Antes que eu me esqueça, tenho uma coisa para você.
Ela se dirigiu ao quarto, e Adonai ouviu o barulho de gavetas sendo abertas. Minutos depois, a avó voltou segurando um objeto embrulhado em um pano de prato xadrez. Depois de colocar o embrulho sobre a mesa, ela desfez o nó com cuidado.
— Tome, isso é para você. Um presente de aniversário.
— Vó, mas o aniversário é seu, não meu! — Adonai riu, balançando a cabeça. — A senhora não devia estar me dando nada.
— Cala a boca, menina. Aceita logo.
Dona Carmem revelou um livro. Era velho, com a capa de couro desgastada e as bordas das páginas amareladas pelo tempo. Na capa, não havia título, apenas uma figura em relevo desbotada que parecia uma árvore com galhos retorcidos. Adonai pegou o objeto com as mãos, sentindo o peso e a textura áspera do couro.
— Vó, que livro é esse? Não tem nada escrito na capa.
— É um livro antigo, muito antigo. Era da minha mãe, sua bisavó. Ela me deu quando eu era jovem, mas nunca consegui ler direito. Acho que a letra é muito miúda, ou talvez eu nunca tenha tido paciência. Mas você sempre gostou de ler. Tome, fique com ele.
Adonai abriu o livro com curiosidade. As páginas, finas e frágeis, estavam cobertas por uma caligrafia apertada e elegante, em tinta que já desbotara para um tom sépia. Ela não conseguia entender a língua, que parecia uma mistura de português antigo com algo mais. Palavras soltas aqui e ali pareciam familiares, mas o sentido geral lhe escapava.
— Vó, não sei se vou conseguir ler isso. A letra é muito complicada.
— Tenta, minha filha. Quem sabe um dia você descobre o que está escrito aí. Eu sempre tive a sensação de que esse livro guarda um segredo. Algo importante.
— A senhora não leu?
— Li algumas páginas, mas parecia um sonho. Palavras que dançavam na minha frente. Depois desisti. Guardei ele por todos esses anos, esperando a pessoa certa. Acho que você é essa pessoa.
Adonai guardou o livro na bolsa, ainda sentindo o peso estranho do objeto. O entusiasmo da avó a deixou intrigada, mas o cansaço estava começando a falar mais alto. O corpo pedia por descanso. Depois de mais um pouco de conversa, ela se despediu, prometendo voltar no fim de semana.
— Durma bem, minha neta. E, quando puder, me conte o que achou do livro.
— Pode deixar, vó. Boa noite.
O caminho de volta para casa foi silencioso. O ônibus ia quase vazio, e Adonai sentou perto da janela, observando as luzes da cidade passarem como borrões. O livro estava dentro da bolsa, e ela sentia uma vontade quase irresistível de abri-lo de novo. Mas o sono começava a pesar as pálpebras.
Quando finalmente chegou em seu apartamento pequeno, no bairro onde morava sozinha, Adonai mal teve forças para se trocar. Jogou a bolsa em cima da cama, tirou a roupa de trabalho e vestiu uma camisola leve. A noite estava quente, e o ventilador de teto girava lentamente, criando um zumbido constante.
Ela se deitou, mas a mente não conseguia se aquietar. O rosto da avó, o cheiro do bolo, o livro. Aquele objeto misterioso a chamava, como se tivesse uma voz própria. Nutrida por uma curiosidade que vencia a exaustão, Adonai se levantou, pegou o livro na bolsa e voltou para a cama.
Sentada, com as costas apoiadas na cabeceira, ela abriu o livro na primeira página. A caligrafia parecia ainda mais intrincada sob a luz fraca do abajur. Ela passou os dedos sobre as letras, sentindo as ondulações do papel. De repente, uma das palavras pareceu brilhar, como se o ouro da tinta velha capturasse a luz. Adonai franziu o cenho e se inclinou para ler mais de perto.
Foi então que o mundo ao seu redor se desfez.
Um vento frio e repentino varreu o quarto, fazendo as cortinas voarem. A luz do abajur vacilou, e as letras no livro começaram a se mover, saindo das páginas como fumaça. Adonai tentou fechar o livro, mas suas mãos não obedeciam. Ela sentiu uma força invisível a puxar, como se o chão tivesse sumido debaixo de seus pés.
— O que está... — ela murmurou, antes que o ar lhe faltasse.
O quarto girou, e a última coisa que Adonai viu foram as palavras dançando ao seu redor, formando redemoinhos de tinta e luz. O livro caiu da cama, mas ela já não estava mais ali. Ela estava em algum outro lugar, em um lugar que não era lugar nenhum.
Uma escuridão a envolveu, e então, como um filme que começa, imagens começaram a se formar. Ela viu uma rua de paralelepípedos, casas coloniais com janelas de treliça, e no ar, o cheiro de terra molhada e flores. Vozes sussurravam em uma língua estranha, e Adonai percebeu que estava em pé, em uma calçada de pedra, sob um céu que tinha a cor do fim de tarde.
Mas onde era aquilo? E quando?
Ela olhou para as próprias mãos e viu que ainda segurava o livro, agora aberto. As páginas estavam em branco. O coração disparou. O pânico começou a tomar conta, mas uma sensação de calma estranha, como uma mão no ombro, a fez respirar fundo.
Ela não sabia como nem por quê, mas sabia que o livro a trouxera até ali. A aventura, contra sua vontade, já havia começado.