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Chapter 1

Capítulo 1: O Despertar da Lâmpada

Após mil anos selado em sua própria arma, Lucien desperta em um antiquário moderno. Sua confusão com o novo mundo é interrompida pela chegada de Elara, uma jovem meio-gata que investiga o artefato. Entre diálogos tensos e descobertas, Lucien percebe que sua vingança terá que esperar — e que Elara pode ser a chave para entender o que aconteceu.

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A lâmpada não era bonita. Era feia, na verdade — uma coisa de bronze manchado com um centro de fogo azul que pulsava como um coração doente. O antiquário a chamava de “vaso etrusco”, mas qualquer um com dois olhos via que aquilo não era obra de mão humana. Ou pelo menos, não de mãos que ainda estivessem vivas.

Ela estava ali, esquecida numa prateleira empoeirada, quando o fogo azul tremeluziu. Primeiro fraco, depois mais forte. E então, com um estalo seco que quebrou o silêncio da loja, a tampa se abriu.

Lucien caiu no chão.

Literalmente. De cara no tapete persa, com uma dor nas costas que não sentia há mil anos. Mil anos. Ele tentou se levantar, mas seu corpo — que antes era feito de presas e escuridão — agora parecia uma gelatina com ciática. Uma gelatina muito irritada.

— Onde… — ele rosnou, mas a voz saiu como um chiado. — Onde está minha vingança?

Ninguém respondeu. Só o som de um rádio de pilha tocando uma música pop horripilante. Lucien franziu o nariz. Que fedor. Cheirava a plástico, café queimado e algo chamado “desodorante aerosol”. Ele odiou tudo aquilo imediatamente.

A loja era pequena, abarrotada de mesas, cadeiras e objetos que parecia terem sido tirados de um lixão de deuses. Lâmpadas de lava. Um manequim sem cabeça usando uma camisa havaiana. E, no meio de tudo, a sua lâmpada. A sua arma. O símbolo do seu selo.

Lucien a pegou com cuidado. A chama azul dançou, reconhecendo-o. Ela estava mais fraca. Mil anos consumindo magia para mantê-lo preso ali dentro tinham cobrado seu preço. Mas ainda era sua. Ainda era poder.

Ele ia sair pela porta quando ela se abriu.

Uma mulher entrou. Não, não uma mulher — uma coisa meio mulher, meio gato. Orelhas pontudas, olhos verdes que brilhavam na penumbra, e uma cauda que se agitava com curiosidade enquanto ela o encarava.

— Você — disse ela, com uma voz que misturava admiração e susto. — Você saiu da lâmpada.

Lucien bufou.

— Não saí da lâmpada. A lâmpada é que era minha prisão. E você é… o quê? Uma gata falante?

Ela cruzou os braços. A cauda parou de se mexer.

— Meio-gata. E meu nome é Elara. Trabalho aqui perto, no museu de história oculta. Eu estava monitorando esta peça há semanas. A energia que ela emitia… não era normal.

— Normal? — Lucien riu, mas não havia humor ali. — Eu sou um vampiro de mil anos que foi traído, selado e esquecido. Normal é o que eu não sou.

Elara não recuou. Pelo contrário, deu um passo à frente.

— Você precisa de ajuda. Do mundo mudou. Não há mais castelos nem carruagens. Tem carros, internet, e uma coisa chamada “delivery”. Você não vai conseguir vingança nenhuma sem entender isso.

— Eu não preciso de ajuda. Preciso de sangue e de nomes.

— Sangue você encontra em qualquer esquina, mas nomes… — Elara sorriu, e seus dentes eram afiados. — Nomes eu tenho. Ou pelo menos pistas. Mas isso tem um preço.

Lucien a estudou. Ela não parecia uma ameaça. Mas também não parecia uma tola. E ele conhecia bem os dois tipos.

— Qual preço?

— Você me conta sua história. A verdade. E eu ajudo você a se adaptar. Depois, a gente vê o que fazer com essa vingança.

Ele hesitou. Mil anos de silêncio pesavam mais do que qualquer promessa. Mas a fome — a fome de respostas, de justiça, de sangue — falava mais alto.

— Trato feito — ele disse, e estendeu a mão.

Ela apertou. A pele dela era quente, viva. Lucien sentiu o cheiro dela: humano, sim, mas com um toque de erva-dos-gatos. Esquisito.

— Primeiro — disse Elara, soltando a mão e puxando um celular do bolso —, vamos tirar você dessa roupa. Você parece um personagem de filme de época. E fedorento.

— Fedorento? — Lucien olhou para a própria túnica rasgada. — Isso é fedor de mil anos. É nobre.

— É fedor de mofo. Vem comigo.

Ela o guiou para fora da loja. A rua era um caos de luzes, barulhos e gente que passava sem olhar para ele. Uma mulher com uma bolsa cor-de-rosa quase esbarrou nele. Lucien rosnou, e ela se afastou com um gritinho.

— Isso não vai funcionar — disse Elara, puxando-o para uma viela. — Você não pode rosnar para todo mundo. Aqui as pessoas chamam a polícia. E polícia é pior do que caçadores.

— Caçadores?

— Existem. Mas são mais discretos. Alguns usam capas, outros usam ternos. Você vai aprender.

Ela abriu a porta de um prédio velho. Subiram escadas até um apartamento minúsculo, cheio de livros, mapas e artefatos que brilhavam no escuro. Lucien reconheceu alguns símbolos. Runas de proteção. Selos de aprisionamento.

— Você estuda isso? — perguntou.

— É meu trabalho. E meu hobby. E minha obsessão, talvez. — Elara apontou para uma poltrona. — Senta. Vou buscar comida. E sangue. Tenho um estoque no freezer.

— Sangue congelado?

— É melhor que nada. E não reclame. No mercado negro, um litro custa o olho da cara.

Enquanto ela se virava, Lucien observou o apartamento. Na parede, uma foto antiga. Uma mulher parecida com Elara, mas mais velha, ao lado de um homem com uma cicatriz no rosto. E, no canto da foto, um símbolo. O mesmo símbolo que estava gravado na base da sua lâmpada.

Sua respiração prendeu.

— Elara — ele chamou, com a voz mais calma do que sentia. — Quem é essa mulher?

Ela parou, com uma bolsa de sangue na mão. Seus olhos verdes encontraram os dele.

— Minha avó. Morreu há vinte anos. Por que?

— Porque ela usava o mesmo selo que me prendeu. — Lucien se levantou. — Sua família tem algo a ver com isso.

Elara não piscou. Mas a cauda dela se eriçou.

— Eu sei — ela disse, baixinho. — Por isso que eu te esperava.

O silêncio entre eles era pesado como uma lápide. Lá fora, a cidade continuava seu barulho, indiferente. Mas ali, naquele apartamento apertado, o passado finalmente começava a despertar.

E a vingança, que dormira mil anos, abriu um olho.

— Conte-me tudo — Lucien ordenou, e pela primeira vez, sua voz não era só raiva. Era expectativa.

Elara suspirou. Sentou-se no chão, cruzando as pernas. A bolsa de sangue ficou esquecida.

— Vou te contar o que sei. Mas prometa uma coisa: quando ouvir, não vai destruir o primeiro prédio que vir pela frente. A gente precisa de um plano.

— Prometo tentar.

— Não é o bastante.

— É o que tenho.

Ela o encarou por um longo momento. Depois, começou a falar. E enquanto as palavras saíam, Lucien sentia o peso de mil anos se desdobrando como uma ferida que nunca cicatrizou.

A história que ela contava era a dele, mas distorcida. Traições que ele não lembrava. Aliados que se tornaram inimigos. E uma mulher de olhos frios que, segundo Elara, ainda estava viva.

Seraphina.

O nome ecoou na mente dele como um sino rachado.

— Ela é a responsável? — ele perguntou, com a voz rouca.

— Sim — respondeu Elara. — E ela sabe que você voltou. Está te esperando.

Lucien sorriu. Um sorriso que não era bonito. Era o sorriso de quem acabara de encontrar o alvo depois de uma eternidade perdido.

— Então vamos até ela.

— Não. — Elara se levantou, firme. — Primeiro, você precisa de um time. Não vai enfrentar Seraphina sozinho. Ela tem exércitos. Você tem uma lâmpada e fome.

— E você.

— E eu. Mas não basto. Precisamos de mais. Um guerreiro, um estrategista. Alguém que entenda de maldições.

Lucien franziu o cenho.

— E onde eu encontro essas pessoas?

— Deixe comigo — disse Elara, com um brilho nos olhos. — Eu conheço os lugares certos. Mas prepare-se: o mundo mudou, mas os problemas continuam os mesmos. Só que agora com Wi-Fi.

Ele não entendeu a piada. Mas, por algum motivo, quase sorriu.

Quase.

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