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Chapter 1

Capítulo 1: O Preço do Sorriso

Clara, uma estudante universitária que vive com dificuldades financeiras, decide usar sua beleza e charme para conquistar um lugar ao sol. Ela identifica em Lucas, um colega rico e popular, a oportunidade ideal. Ao se preparar para seduzi-lo, Clara sente um misto de esperança e vazio, pressagiando que este amor irônico pode custar mais do que imagina.

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Clara apertou o passo, ajustando a mochila que pesava nos ombros. O campus da universidade estava vazio àquela hora da tarde, com exceção de alguns grupos dispersos sentados na grama. Ela não podia se dar ao luxo de parar. A bolsa de estudos cobria as mensalidades, mas o restante – alimentação, aluguel, livros – dependia de um malabarismo constante entre estágios mal pagos e favores de amigos. Aos vinte e dois anos, Clara já sabia que o amor era uma moeda de troca. Não que ela fosse cínica; apenas realista. Seus pais tinham se separado quando ela era pequena, e a mãe, uma mulher batalhadora, nunca conseguiu sair do vermelho. Clara jurou que seria diferente. Ela não se apaixonaria por um homem pobre; não se apaixonaria por ninguém que não pudesse lhe oferecer segurança. O problema era que, no fundo, ela acreditava no amor. Talvez por isso aquela sensação de culpa a acompanhasse como uma sombra.

Na biblioteca, Clara sentou-se na mesa de sempre, perto da janela que dava para o jardim interno. Abriu o caderno e rabiscou algumas anotações sobre a aula de sociologia, mas sua mente vagava. Hoje ela tinha visto Lucas. Ele era o tipo de pessoa que iluminava o ambiente sem perceber – ou talvez percebendo muito bem. Filho de um empresário do ramo imobiliário, Lucas andava sempre rodeado de amigos, os cabelos castanhos perfeitamente desalinhados, um sorriso fácil que desarmava qualquer um. E ele era gentil. Isso era o pior: Clara não conseguia encontrar um único defeito nele, a não ser a própria diferença de classe que existia entre os dois.

Ela suspirou e fechou o caderno. Conhecia Lucas das aulas de literatura comparada. Nas últimas semanas, ele tinha se sentado ao lado dela, trocado alguns comentários sobre os poemas de Pessoa. Clara respondia com um sorriso contido, calculado para parecer intelectual e misteriosa. Não queria parecer interessada demais. Mas agora, depois de ter recebido o aviso de que seu estágio na livraria terminaria no mês que vem, precisava de um plano. A ideia brotou enquanto ela olhava pela janela: Lucas poderia ser a saída. Se ela conseguisse um relacionamento com ele, as portas se abririam. Estágios melhores, contatos, talvez até um convite para morar em um lugar melhor. A mãe de Clara sempre dizia que beleza é capital, e Clara sabia que tinha isso de sobra.

Naquela noite, em seu quarto apertado, ela se olhou no espelho. O cabelo castanho escuro caía sobre os ombros, os olhos verdes pareciam duas esmeraldas. Ela vestiu uma blusa mais decotada, depois a trocou por outra mais discreta. Era preciso dosar. Não queria parecer vulgar, mas também não podia passar despercebida. Lembrou-se do olhar que Lucas lhe lançara na saída da aula – um olhar curioso, como se quisesse decifrá-la. Talvez já houvesse uma brecha. Clara respirou fundo e começou a planejar os próximos passos.

Dias depois, ela o abordou na cantina. Fingiu estar distraída, derrubou a xícara de café – não por acidente, mas com a precisão de uma atriz – e pediu desculpas enquanto Lucas a ajudava a limpar a bagunça. Ele riu, disse que não era nada, e ofereceu-se para comprar outro café. Clara aceitou, sentando-se à mesa dele, cercada pelos olhares curiosos dos amigos. Durante a conversa, ela falou sobre o curso, sobre as dificuldades de ser bolsista, sobre o desejo de escrever um livro. Lucas ouvia atentamente, com uma expressão que misturava interesse e compaixão. Quando ele perguntou se ela tinha planos para o fim de semana, Clara sentiu o coração acelerar. Não era amor; era a pulsação do objetivo.

O encontro foi no sábado, em um café perto do campus. Lucas apareceu com um buquê de margaridas – as flores favoritas que Clara tinha mencionado de passagem. Ela sorriu, genuinamente tocada, mas logo se lembrou de que aquilo fazia parte do jogo. Eles conversaram sobre literatura, sobre viagens, sobre a vida. Lucas falou da irmã mais nova, que estava doente, e Clara viu uma vulnerabilidade que não esperava. Por um instante, ela sentiu vergonha de estar usando aquela pessoa. Mas logo sufocou o pensamento: era assim que o mundo funcionava. Uns vendiam amor, outros compravam. Ela só estava vendendo o que tinha.

Caminharam depois pelo parque, sob o sol de outono. Clara contou sobre a infância no interior, sobre a mãe que trabalhava em três empregos. Lucas ouviu em silêncio, depois segurou a mão dela. Foi um gesto tão natural que Clara quase acreditou que merecia aquele carinho. Mas, na verdade, sentia o frio do anel que ele usava no dedo, um símbolo de um mundo que ela queria habitar. Naquele momento, Clara decidiu que iria até o fim. Independentemente do preço.

No entanto, enquanto se despedia, um pensamento incômodo a assaltou: e se Lucas não fosse apenas um meio para um fim? E se ele, com suas margaridas e sua gentileza, estivesse se apaixonando de verdade? Clara sacudiu a cabeça, mas a dúvida ficou. Ao voltar para seu quarto, ela se sentou na beira da cama e pegou o telefone. Havia uma mensagem de Lucas: "Adorei o dia de hoje. Mal posso esperar para te ver de novo. Boa noite, Clara." Ela leu três vezes, buscando uma fresta por onde escapar. Mas não encontrou. Tudo estava seguindo o plano. O problema é que planos, como amores, têm a ironia de se virar contra quem os faz.

Ela respondeu com um emoji de coração e desligou o aparelho. Na penumbra do quarto, Clara sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. Sentiu que algo se quebrava dentro dela – talvez a última resistência. Agora não havia volta. Ela estava disposta a pagar o preço. Só não sabia que o amor irônico cobra juros altos, e que a primeira parcela já tinha vencido.

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