Sofia caminhou pelo corredor de volta para a sala, dedos fechados em torno do bilhete. O papel amassava entre as palmas suadas. O cheiro forte de café vinha da cantina, misturava-se ao perfume doce das flores que alguém havia deixado na janela. Cada passo parecia ampliar o calor que subia pelo peito, e a sensação era de leveza e ameaça ao mesmo tempo — como se estivesse à beira de um precipício e, pela primeira vez, quisesse saltar.
Na porta da sala, Lucas esperava, mochila jogada no ombro, o olhar perdido no celular. Por um instante, ele não percebe quando ela se aproxima. Mas sente. Levanta a cabeça, olhos castanhos brilhando sob a luz fluorescente, e um sorriso nasce, incerto, nos lábios — o mesmo que ela viu no corredor. Aquela cumplicidade silenciosa ainda pulsa entre os dois, frágil e intensa.
— Gostou do bilhete? — arrisca ele, voz baixa, como se temesse ser flagrado.
Sofia guarda o papel no bolso do casaco, sem conseguir conter o sorriso. — Achei fofo — responde. — Alguém tem bom gosto.
Lucas ri, tímido. O gesto faz seu cabelo cair ainda mais sobre os olhos. Ele se aproxima, baixando o tom. — Fico feliz. Achei que ia achar estranho…
— Eu achei bonito, de verdade — diz ela, firme, esforçando-se para não vacilar, não desviar o olhar.
O corredor se esvazia, vozes ecoando distantes. Por um momento, o tempo parece pequeno, moldado só por eles. O silêncio cresce, mas não é desconfortável. Os dois sentem o peso do que não dizem, o desejo novo de compartilhar um segredo.
Lucas coça a nuca, um gesto nervoso. — A gente podia começar o projeto hoje à tarde. Se quiser… posso te mostrar um lugar legal no parque, onde costumo ir pra pensar. Levo meu violão. Você leva o caderno.
Sofia hesita, surpresa pela proposta. Não por medo, mas porque percebe que o convite é mais do que parece. Um encontro disfarçado de estudo. A ideia faz seu estômago girar, ansioso. Lá fora, nuvens se acumulam, o céu transita entre o cinza e o dourado. O presságio de uma tarde diferente.
— Pode ser — responde, sentindo o coração bater forte, uma mistura de nervosismo e expectativa.
Lucas sorri, aliviado. Eles trocam olhares longos, um laço silencioso crescendo entre os dois. Antes que possam dizer qualquer coisa, a professora aparece na porta, chamando para a próxima aula. Eles entram, sentam-se juntos, a mesa pequena para tanto papel e intenção. Sofia sente o braço de Lucas roçar de leve no seu enquanto escrevem as primeiras ideias do projeto. Cada contato acidental faz sua pele arder.
Na saída, a chuva ameaça cair, mas só um vento frio atravessa o pátio. Sofia espera Lucas guardar o material. Quando ele se aproxima, estão tão perto que cada respiração se mistura. Lucas hesita, olhando para a boca dela, os olhos brilhando com algo novo. O tempo para. Sofia sente que, se ele se inclinar um pouco mais, vai acontecer. O momento paira, carregado de expectativa, um passo além da rotina — e do que conhece de si mesma.