A manhã chegou carregada de uma luz tímida, e o papel com o endereço do bar parecia mais pesado do que na noite anterior. Ana girava o bilhete entre os dedos enquanto o café esfriava na mesa. As palavras de Pedro ecoavam, misturadas ao som das ruas, aos ruídos banais do apartamento onde, até então, tudo era previsível.
Pegou o pincel, tentando mergulhar no trabalho. Tentou cores calmas, linhas firmes, mas tudo escapava. O quadro se recusava a tomar forma. Só o rosto de Pedro insistia em surgir nos contornos difusos, e isso a irritava. Por que um estranho, um músico, mexia tanto com ela?
Sofia apareceu cedo, ainda com sono, o cabelo preso de qualquer jeito. Parou na porta do ateliê, observando a amiga sem ousar interromper. O silêncio se alongou até que Ana quebrou, com uma voz mais suave do que pretendia:
— Ele me convidou para o show hoje à noite.
Sofia sorriu, um sorriso largo, afetuoso, e atravessou a sala, sentando-se na ponta da mesa. Pegou o bilhete.
— Vai, né? — perguntou, como se já soubesse a resposta.
Ana hesitou. O medo do novo, do improvável, da bagunça que vinha junto com Pedro, tudo misturado no peito.
— Não sei. Eu nem conheço ele direito. — O tom saiu mais baixo do que pretendia, quase um sussurro.
— Ninguém conhece ninguém direito, até conhecer — retrucou Sofia, levantando as sobrancelhas. — Só vai. O máximo que pode acontecer é você ter uma boa história pra pintar depois.
O dia correu lento. Ana tentou se distrair, mas o pensamento voltava sempre para o convite. Pedro, a música, o toque rápido das mãos. Ela se pegou escolhendo a roupa sem pensar, testando combinações no espelho, brigando consigo mesma por estar nervosa. Não era esse o plano. Não era assim que seu mundo funcionava.
Quando o sol começou a sumir, Ana enfim deu por vencida a batalha interna. Vestiu-se com algo simples, mas que a fazia sentir-se confortável, respirou fundo e saiu. O bilhete estava dobrado no bolso. O caminho até o bar parecia mais longo do que realmente era, e cada passo era acompanhado por um medo estranho e, ao mesmo tempo, uma excitação nova, vibrante.
O bar era pequeno, aconchegante, com luz baixa e um cheiro de madeira antiga. Um grupo de pessoas conversava baixo, algumas já olhando para o palco improvisado ao fundo. Pedro estava lá, afinando o violão, o rosto meio oculto pela penumbra. Ele levantou o olhar, e quando viu Ana, um sorriso se abriu, largo, sincero. O coração dela pulou no peito.
Ele fez sinal para que ela se aproximasse. Uma mesa reservada, perto do palco, com duas cadeiras. Quando Ana chegou, Pedro se inclinou, falando só para ela:
— Eu sabia que você vinha.
— Não sabia nada — respondeu, tentando parecer casual, mas sentindo o rosto arder.
— Sabia sim. Algumas coisas a gente sente.
Antes que ela pudesse responder, um homem mais velho, de barba grisalha, se aproximou do palco, batendo palmas para pedir silêncio. Pedro ajeitou o violão no colo, olhou mais uma vez para Ana — um olhar denso, cheio de promessas não ditas — e começou a tocar.
A música pairou no ar, delicada e profunda. Ana se esqueceu do resto do bar. Só existia ele, o som, a maneira como ele fechava os olhos quando cantava um verso importante. Ela sentiu um calor diferente no peito, uma vontade urgente de tocar aquelas mãos, de dizer tudo o que se guardava há tanto tempo.
No último acorde, Pedro abriu os olhos, e os dois se olharam, presos num instante em que o mundo parecia suspenso. Ele desceu do palco direto para Ana, sem cumprimentar ninguém. Parou tão perto que ela sentiu o cheiro dele — algo quente, familiar, assustadoramente íntimo.
— Vem comigo, Ana. — ele disse, a voz baixa, as palavras um convite e um desafio.
Ela hesitou, sentindo a vida se dividir em antes e depois daquele momento. O bar inteiro parecia aguardar sua resposta, o ar carregado de expectativa.