O sol da manhã mal atravessava as janelas da sala quando Isabela encontrou Ana na entrada do colégio. Ana já estava rodeada de gente, mas abriu espaço ao vê-la chegar, como se a esperasse desde cedo.
— E aí, futura arquiteta — disse Ana, piscando. — Dormiu bem ou ficou pensando no Lucas?
Isabela tentou disfarçar o sorriso, mas sentiu as bochechas esquentarem. O nome dele parecia mais alto, vibrando por dentro. — Dormi bem, sim…
Antes que Ana pudesse continuar as provocações, o próprio Lucas apareceu no corredor. Ele não percebeu ninguém além de Isabela, sorrindo daquele jeito que fazia o coração dela bater mais forte e estranho. Estava com o uniforme um pouco amassado, um caderno equilibrado entre os dedos e uma mochila azul escura pendurada em um ombro só.
— Oi, Isabela. Oi, Ana.
— Oi, Lucas — respondeu Ana, com um sorriso maroto. — Já estão enturmados?
Ele riu, um pouco sem jeito, e virou-se para Isabela. — Você trouxe aquele desenho da casa dos sonhos?
— Trouxe, claro. — Isabela apertou a alça da mochila, sentindo o desenho dobrado com cuidado dentro do fichário.
O sinal tocou, e a multidão começou a se empurrar para entrar na sala. Eles seguiram juntos até os fundos, se sentando lado a lado. Ana ficou duas carteiras atrás, vigiando tudo com olhos atentos e cúmplices.
Durante a aula, Isabela sentia a presença de Lucas ao seu lado, o cotovelo dele esbarrando no seu de vez em quando, de um jeito distraído mas confortável. Quando o professor virou as costas para escrever na lousa, Lucas puxou o fichário dela de leve.
— Posso ver agora?
Ela olhou em volta, o coração disparando. O cheiro de suco de maracujá ainda parecia pairar entre eles, mesmo que já fosse outro dia. Cuidadosa, abriu o fichário na página certa e mostrou o desenho. Era uma casa moderna, janelas enormes, um jardim cheio de árvores e um balanço de madeira.
Lucas se inclinou para olhar de perto. Os ombros quase se tocavam. Ele examinou cada linha com tanta atenção que Isabela esqueceu de respirar por um instante.
— Isso é incrível — sussurrou ele. — Parece que dá vontade de morar aí agora.
Ela riu, nervosa. — Eu queria mesmo construir um lugar assim, sabe? Onde as pessoas se sintam seguras… e felizes.
Lucas olhou para ela, sério por um momento, e depois sorriu, suave. — Acho que você já faz isso. Me faz sentir assim aqui.
A frase pairou no ar, mais quente que o sol do início do dia. Isabela sentiu um aperto gostoso no peito. As palavras dançavam em silêncio, indecifráveis, até que o professor se virou de repente, pegando os dois distraídos.
— Srta. Isabela, Sr. Lucas, algo interessante aí?
A turma riu em coro. Isabela corou, gaguejando uma desculpa, enquanto Lucas rapidamente fechou o fichário e sussurrou um pedido de desculpas. O professor voltou à lousa, e os dois respiraram aliviados, trocando um olhar cúmplice cheio de risos contidos.
Quando o sinal do recreio finalmente soou, Isabela saiu para o pátio com Lucas ao lado. O céu estava limpo, e o vento leve trazia cheiro de pão fresco do refeitório. Sentaram-se debaixo da árvore de sempre, onde a luz filtrada pelas folhas deixava tudo com ar de segredo.
Lucas se virou para ela, mais perto do que o habitual. O sorriso, agora, era tímido. — Eu sei que cheguei agora, mas… queria te perguntar uma coisa.
Isabela engoliu em seco, sentindo o coração acelerar. Por um instante, tudo ao redor pareceu parar. Lucas hesitou, olhando fundo nos olhos dela, e ela sentiu a eletricidade invisível passar entre eles.
No momento seguinte, ele se inclinou ligeiramente, os lábios quase tocando o canto da boca dela. Isabela prendeu a respiração, sentindo o mundo girar devagar. Tudo estava prestes a mudar.