Na manhã seguinte, Jesus acordou dolorido. Cada músculo doía como se tivesse sido espremido por dentro. Tentou se espreguiçar e gemeu baixinho, mas por dentro reconhecia o orgulho de quem realmente tentou.
O café da manhã foi apressado, pão com manteiga e café preto, e logo ele já estava parado diante do espelho do banheiro, olhando para si mesmo. Havia algo diferente ali — não no corpo, mas no olhar. Um brilho discreto, talvez esperança, talvez ansiedade. Ele sorriu para si, ajeitou a camisa e pegou a mochila.
No ônibus, mesmo com os solavancos, a lembrança do sorriso dela voltava como um refrão. O tempo inteiro, o nome dela martelando na cabeça — mas ele nem sabia seu nome. Era "a garota mais bela da academia", e só. No trajeto até a academia, Jesus passou a mão suada na testa, pensando no que faria se a visse de novo.
Chegou cedo, quase dez minutos antes do horário de abertura. A recepcionista ainda estava subindo as persianas quando viu Jesus e sorriu, simpática. — Já está animado, hein? Pode ir entrando, vou liberar seu acesso.
O saguão ainda estava vazio. O cheiro do produto de limpeza misturava-se ao aroma de café vindo da sala dos funcionários. Ele deixou a mochila no vestiário, trocou de roupa e, respirando fundo, foi para a sala de musculação.
Antes mesmo de ligar o equipamento, viu um movimento pelo espelho: o rabo de cavalo loiro, a silhueta atlética. Ela chegou alguns minutos depois, cumprimentando a recepcionista e, num gesto automático, colocou os fones de ouvido. Mas, por um instante, o olhar dela cruzou o dele. Um aceno breve, cúmplice, como se dissessem: "Lá vamos nós de novo".
O instrutor não estava presente ainda, então Jesus decidiu aquecer sozinho. Pegou um colchonete, deitou, tentou fazer alguns abdominais, falhou na terceira repetição. Respirou fundo. Era preciso persistência.
De repente, a garota loira estava ao lado, pegando pesos pequenos. Ela olhou para Jesus e tirou um dos fones de ouvido. — Hoje é abdominal, né? Disse, rindo.
O rosto de Jesus ficou vermelho, mas ele não desviou o olhar. — Tento, mas tá difícil.
Ela se sentou ao lado dele no colchonete, ainda sorrindo. — Vem, a gente faz juntos. Assim passa mais rápido.
O coração de Jesus disparou. Sem saber como agir, apenas se posicionou ao lado dela, copiando os movimentos. A cada subida, sentia o cheiro de shampoo e ouvia a respiração dela, tranquila, ritmada. Quase esqueceu da dor.
Quando terminaram, ela ficou sentada, apoiando-se nos braços, olhando para o teto. — Você vai ver. Em duas semanas, já vai estar acostumado. Ah, eu sou a Bela.
O nome soou como uma piada do destino. Jesus riu, sentindo-se mais leve. — Eu sou Jesus.
Bela estendeu a mão, forte e quente. O toque dela parecia aquecer algo dentro dele.
De repente, alguém entrou apressado na sala: era o instrutor. — Vocês já começaram sem mim? Gostei de ver!
O olhar do instrutor passou dos dois para a planilha em sua mão. — Jesus, hoje vamos tentar um circuito leve. Bela, vai para o supino?
Ela levantou-se, mas antes de ir, olhou para Jesus, sorrindo de novo. — Depois quero ver seu progresso, hein.
Jesus assistiu Bela se afastar, o coração batendo forte, uma sensação nova crescendo dentro do peito. Algo entre nervosismo e expectativa. A aula começou, mas sua atenção estava dividida entre os exercícios e o último sorriso dela, agora gravado com nitidez na memória.
No fim do treino, quase sem perceber, Jesus encontrou Bela de novo na área de alongamento. Ela estava sentada, puxando a perna esquerda para trás, o rosto levemente suado, mas ainda linda de um jeito absurdo. Ao perceber Jesus, ela fez sinal para que ele se sentasse ao lado. O silêncio entre os dois era confortável, como se alguma cumplicidade já tivesse nascido ali.
Quando terminaram, Bela se levantou, pegou a toalha e — inesperadamente — tocou de leve no braço dele. — Até amanhã, Jesus. Ou... — ela olhou nos olhos dele, rindo — quem sabe mais tarde, se topar tomar um suco comigo.
O convite ficou no ar, cheio de possibilidades.