O caminho de volta para casa parecia mais longo naquela noite. O silêncio dentro do carro era denso, só interrompido pelo zumbido baixo do motor e pelo som abafado das luzes da cidade passando pelo vidro. Paula, exausta, adormeceu no banco de trás, ainda com a tiara torta na cabeça. Ryan dirigia sem olhar para Linda, as mãos apertadas no volante. O mundo inteiro parecia suspenso naquele momento, comprimido entre raiva e tristeza.
Quando chegaram ao prédio, Linda pegou Paula no colo e subiu devagar. O corredor parecia eterno; cada passo ecoava sua decepção. Entrou no apartamento, colocou Paula na cama com carinho e ficou ali por um instante, observando a filha dormir, buscando um pouco de paz naquela inocência.
Ouviu Ryan batendo a porta da cozinha. Ele encostou-se ao batente, os olhos cansados, mas agora cheios de culpa. — Me desculpa, amor — murmurou. Linda sentiu vontade de gritar, de dizer tudo, mas estava exausta. Sentou-se no sofá, esfregando o rosto nas mãos.
— Não consigo mais, Ryan. Não dá pra continuar assim, fingindo que tá tudo bem. Não quero mais viver nessa tensão toda vez que envolve sua irmã. — Sua voz saiu baixa, mas firme. Era um desabafo de anos.
Ryan sentou ao lado, sem tocá-la. — Eu juro, tentei ser firme. Mandei a mensagem, achei que ela ia entender... — A voz dele se rompeu.
Linda sentiu um nó na garganta. — Ela nunca vai entender porque nunca teve que arcar com as consequências. E a gente deixa. Você deixa. — Um silêncio pesado caiu, só quebrado pelo som distante do relógio da sala. O tempo passando, arrastando as certezas com ele.
O celular de Ryan vibrou na mesa. A tela acendeu, mostrando o nome de Ashley. Linda sentiu um arrepio gelado na espinha. Pegou o aparelho, olhou a notificação: “Desculpa, precisei sair correndo. Depois me avisa quanto ficou, eu te passo.”
Linda não sabia se ria ou chorava. Olhou para Ryan, mostrando a mensagem. Por um momento, um sentimento novo nasceu ali, uma mistura de coragem e indignação. Ela sabia que não poderia mais calar. A próxima resposta definiria tudo dali para frente — não só com Ashley, mas entre ela e Ryan também.
Antes que pudesse se decidir, a campainha tocou. De madrugada, com a cidade mergulhada em silêncio, o som cortou o apartamento como um grito. Linda e Ryan se entreolharam, em alerta. Paula se remexeu no quarto, mas não acordou.
O coração de Linda batia acelerado. Ryan levantou devagar e foi até a porta. Olhou pelo olho mágico, hesitou. Depois de alguns segundos, destrancou e abriu.
Do outro lado, parada sob o clarão frio do corredor, estava Ashley. Cabelo bagunçado, maquiagem borrada, os olhos úmidos e vermelhos. Carregava a bolsa amassada contra o peito, como se buscasse nela algum abrigo improvável.
Ashley não disse nada por um instante. Olhou para Ryan, depois para Linda, os olhos perdidos entre orgulho e arrependimento. Um silêncio constrangedor pairou no ar, como se o próximo segundo pudesse explodir tudo. E foi então que Ashley, com voz trêmula, finalmente sussurrou:
— Eu não tenho pra onde ir. —
O mundo de Linda parou. A decisão estava ali, nua, crua, urgente — e impossível de ignorar.