A manhã seguinte chegou carregada de névoa, envolvendo as ruas de Valiant em um manto acinzentado. Elara mal dormira, atormentada pela mensagem anônima. O envelope branco repousava sobre a mesa, ao lado do medalhão de bronze, como se ambos a encarassem em silêncio, cobrando respostas.
O aroma de café invadiu a pequena cozinha, mas nem mesmo o gosto amargo conseguiu espantar sua ansiedade. Ela olhou para o relógio na parede: ainda faltavam seis dias até o encontro no Café da Lua Crescente. Seis dias para decidir em quem confiar. Seis dias para decifrar os enigmas à sua volta.
Lembrou-se do senhor Finch, o antiquário, que ontem parecia estranhamente atento. Talvez ele soubesse algo sobre o diário do avô ou até mesmo sobre Lysander. Seus dedos tamborilaram na madeira da mesa, hesitando entre sair em busca de respostas ou se esconder do perigo iminente.
Lá fora, a cidade começava a acordar. Ouviam-se vozes abafadas, o rangido de carroças, o tilintar de sinos na confeitaria da esquina. Elara dobrou a mensagem anônima e a guardou no bolso do casaco. Vestiu-se com pressa, prendendo os cabelos escuros em um coque frouxo, tentando parecer invisível.
Ao sair, manteve o olhar baixo, evitando cruzar o olhar com vizinhos curiosos. Seus passos a levaram até a praça principal, onde a fonte ainda gotejava, e as pombas bicavam as migalhas esquecidas. O senhor Finch já estava em sua barraca de livros, organizando volumes antigos com delicadeza de quem conhece cada história pelas costas gastas.
Elara aproximou-se devagar, sentindo o nervosismo crescer dentro do peito. Finch levantou os olhos, sorrindo com gentileza.
“Bom dia, senhorita Elara. Algo a procura?”
Ela hesitou, tentando medir as palavras. “Por acaso... o senhor já ouviu falar de um diário que pertenceu ao meu avô? Um diário roubado.”
O antiquário franziu o cenho, passando os dedos pelo queixo branco. “Roubado, diz? Muitos segredos circulam por estas ruas — alguns mais perigosos que outros.”
Antes que pudesse pressioná-lo mais, uma presença se fez notar atrás de Elara. O calor de uma respiração próxima, o leve perfume de incenso e tabaco. Lysander Thorne. Ele estava ali, mais cedo do que prometido, e seu olhar era como lâmina reluzente.
“Vejo que resolveu buscar respostas por conta própria”, disse ele, voz baixa. “Não esperava menos.”
Finch endireitou-se, os olhos viajando entre Elara e Lysander com uma preocupação evidente.
“Thorne, meu caro, temas velhos demais para jovens corações. Não crie tempestades.”
Lysander sorriu, mas havia algo frio em seu sorriso. “Às vezes a tempestade já está à porta, senhor Finch.”
Elara sentiu o peso do olhar de Lysander sobre ela, intenso, quase feroz. “Veio me vigiar?”, perguntou, tentando soar mais firme do que se sentia.
“Vim garantir que não tome decisões erradas”, respondeu ele, inclinando-se sutilmente em sua direção, tão próximo que Elara pôde ver a linha tensa de sua mandíbula. “E para lembrar que, por mais que tentem separá-la de mim, estamos ligados por algo maior do que ódio, de um jeito que talvez ainda não compreenda.”
As palavras pairaram entre eles, carregadas de promessas não ditas. O senhor Finch pigarreou, quebrando o feitiço do instante, mas a tensão permaneceria ali, pulsando forte. Elara notou um envelope semelhante ao da noite anterior sobre a mesa do antiquário — alguém estivera ali antes dela?
O vento soprou, levando consigo a poeira e os últimos resquícios de segurança. Era impossível fugir das escolhas que se apresentavam. E, naquele momento, Elara percebeu que qualquer decisão custaria caro: a confiança de alguém, um segredo revelado, talvez até o próprio coração.